Governo do Estado


COVID-19: Pandemia, quarentena e isolamento social

Professora Flávia Pellegrino

Por Profª Drª Flávia Pellegrino | CEPDIC UEZO
Professora Adjunta de Microbiologia e Imunologia Clínicas
Coordenadora da Comissão Científica de Estudos para Prevenção e Controle
de Doenças Infectocontagiosas da Fundação Centro Universitário Estadual da Zona Oeste-UEZO

13/04/2020 12h13m | Atualizado 13/04/2020 14h30m



Não é mais novidade para ninguém.

Sim, é uma pandemia!

Estamos vivenciando a emergência e disseminação da COVID-19 (Coronavirus Disease-2019)!

Uma pandemia pode ser definida como uma epidemia que se espalha em nível global, ou seja, quando há o aumento repentino no número de casos de uma doença, além do esperado, e esses casos alcançam proporções globais atingindo todos os continentes; ou ainda, uma pandemia ocorre quando há a propagação mundial de uma nova doença.

A pandemia anunciada em 11 de março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde está sendo causada por um novo membro do grupo dos coronavírus, denominado SARS-CoV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome-Coronavirus 2). Os coronavírus são vírus envelopados, com genoma RNA fita simples de sentido positivo, medindo cerca de 60 a 140 nm de diâmetro e apresentando projeções em sua superfície que ao microscópio eletrônico lhe conferem aparência semelhante à de uma coroa; daí o nome coronavírus.

SARS-CoV-2, portanto, é o agente etiológico da COVID-19, uma doença infecciosa de caráter respiratório agudo cujo número de casos confirmados já ultrapassa 1.770.000, com mais de 111.000 mortes confirmadas, em 213 países, até o presente momento, atingindo de forma devastadora a China, a Europa, e chegando com força às Américas.

Assim que fomos notificados de que havia uma epidemia em Wuhan, uma cidade chinesa pouco comentada nas mídias e redes sociais, não fazíamos ideia de que pudéssemos ser atingidos aqui no Brasil, um país tropical latino-americano tão longe da China.

No entanto, não podemos esquecer que hoje nosso mundo mudou. Somos um mundo globalizado, onde pessoas podem ir e vir de diferentes lugares e de locais muito distantes, principalmente, através da aviação.

A pandemia nos atingiu! Agora, temos a inevitável transmissão comunitária da COVID-19. O SARS-CoV-2 está circulando no Brasil, onde, como esperado, a maioria das pessoas tem manifestado sintomas leves a moderados ou nenhum sintoma (forma assintomática).

No início, o foco das medidas de prevenção da COVID-19 estava na lavagem de mãos com água e sabão, uma medida nada recente, defendida ainda no século XIX por grandes nomes da Ciência como Joseph Lister, Louis Pasteur e Robert Koch; a medida é eficaz na redução da transmissão, pessoa a pessoa, de microrganismos veiculados pelas mãos, e, inclusive, do número de mortes por microrganismos causadores de doenças infecciosas. A higienização das mãos com preparações alcoólicas, como o álcool em gel a 70%, também foi bastante enfatizada como alternativa em locais onde a lavagem de mãos com água e sabão não seria possível. Outro assunto relevante tem sido o uso de equipamentos de proteção respiratória, as máscaras, cirúrgicas ou não. Seu uso por indivíduos saudáveis foi inicialmente desencorajado; mas agora, devido à transmissão comunitária sustentada e aos numerosos casos assintomáticos, é recomendado como uma barreira para conter as gotículas respiratórias do usuário. Sim, a via aérea (partículas em suspensão) e por gotículas estão entre as principais vias de transmissão do SARS-CoV-2, e o uso das máscaras tem o objetivo de tentar frear a disseminação viral.

Finalmente, chegamos ao ponto central do presente artigo: o “Isolamento Social”. O conceito está associado a outro, conhecido como “Quarentena”, ambos atualmente bastante comentados por nós brasileiros.

“Quarentena” é uma das práticas mais antigas e eficazes em saúde pública, que remete ao século XIV, no combate de surtos de doenças transmissíveis. O termo é oriundo do italiano “quaranta” que quer dizer quarenta. A palavra se refere ao período de quarenta dias durante os quais navios chegados a Veneza, na Itália, vindos de portos com pessoas infectadas pela Peste Bubônica (conhecida como “Peste Negra”), deveriam aguardar atracados, antes do desembarque de seus passageiros sobreviventes. O período de quarenta dias estaria relacionado a um tempo superior ao período de incubação do agente infeccioso, permitindo que os casos assintomáticos da doença viessem a se tornar sintomáticos e, deste modo, fossem identificados pelos agentes de saúde. “Quarentena”, portanto, significa a restrição do movimento de pessoas que se presume terem sido expostas ao agente causador de uma doença contagiosa, mas que não necessariamente estão doentes.

Isolamento significa separação. Em medicina, o termo se refere principalmente a uma medida de separação de indivíduos acometidos por doenças infectocontagiosas de outros não infectados, com a finalidade de proteger os não infectados; a medida é frequentemente adotada em ambientes hospitalares. Porém, sabe-se que no caso de algumas doenças infecciosas, como a gripe (Influenza) por exemplo, a transmissão pode se dar antes mesmo do aparecimento dos sintomas, e a pessoa infectada pode transmitir a doença para pessoas saudáveis, sendo o “isolamento” muitas vezes tardio e ineficaz para impedir a transmissão ou controlar uma epidemia/pandemia.

Numa linguagem mais elegante e científica, isolamento social é denominado “Distanciamento Social” e tem por objetivo diminuir a interação e a proximidade entre pessoas numa comunidade onde alguns indivíduos infectados, mas ainda não identificados, podem transmitir a doença. A medida é útil nas seguintes situações: (i) quando se acredita que a transmissão comunitária tenha ocorrido, mas a conexão entre os casos não está clara ou (ii) quando as medidas de restrição de acesso de pessoas sabidamente expostas não são mais consideradas suficientes para evitar novas transmissões. Assim, o distanciamento social pode contribuir na redução da propagação de um vírus transmitido por gotículas respiratórias, como o novo coronavírus, e que para isso requer certa proximidade entre pessoas. O distanciamento social pode ser caracterizado pelo fechamento de escolas, universidades, escritórios, centros comerciais, pelo cancelamento de reuniões, shows, exposições, entre outros, devido ao risco de aglomerações. A medida pode incluir decretos de permanência de indivíduos em seus domicílios por período determinado, visando a proteção da população contra um agente infeccioso potencialmente fatal.

Por essa razão, estamos todos em casa, exceto aqueles que estão trabalhando em prol da saúde humana e da nossa sobrevivência.

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